A anatomia de um beijo

    

    Dá para reconhecer de longe uma mulher beijada do jeito certo. Ela se estende farta e sinuosa, seus cachos maduros pesados como uma afirmação. Soam trombetas glorificando o ontem de volta ao seu devido lugar. Ela se deita, arejada e líquida, suspirando além da pressão encarcerada. Faz as pazes com seu algoz, permite que ele more entre suas costelas. Aceita sua condição de criadora e criatura, verbo e adjetivo, seguidora e templo. Permite que os joelhos se entreguem ao peso da reverência a si mesma. Leva no canto dos olhos o mapa para o submundo. Vai do Céu ao Inferno em apenas um sorriso. 


    Ostenta o queixo iniciado que se rende quando bem quer. Guarda debaixo da língua o mistério causador da insônia daqueles que escolhem não despertar. O enigma é livre, mas a resposta é compulsória. Seu afeto cíclico não pede desculpas. Ora Afrodite, ora carranca de proa; diamantes brilham como verrugas. Ela se decifra e se devora. Monta na besta, morde a maçã, metaboliza o veneno. A mulher beijada do jeito certo não vive em uma torre. Ela é feita de espuma, barro, orvalho e tempestade. Tem crateras, cabelos brancos e uma gravidade particular. Tem pés espalhafatosos que desafiam a melodia e dançam no compasso dos segredos antigos. 


    Exibe as unhas sujas de quem já se decompôs em seu próprio berço, e viu a carne voltar para os ossos de novo e de novo. Estende-se por pântanos e desertos, provoca a ira e a cobiça. Deixa que peguem em armas e na sua cintura. Sussurra para quem quiser ouvir - “o amor e a guerra são apenas graduações da mesma natureza humana; quem salta nos extremos conhece tudo que há no meio”. Descongela megeras e meninas, restaurando o fluxo de merecimento que traz cor às bochechas. Ensina sem ser professora. Faz da Vida a expressão fidedigna de cada palavra que sai da sua boca. Gira a roda que condena o fim em começo. 


    O beijo é o momento onde a verdade entra em suspensão. Uma mulher só é beijada do jeito certo quando tomada pela certeza cristalina de que o silêncio é mais urgente. De que não é vítima de um artifício para selar seus lábios e assim implodir em perjúrio. Ela quer os guerreiros cansados. Aqueles derrotados e aniquilados pela vergonha de serem forasteiros em uma realidade doente. Os que desistiram de fugir do bicho da vulnerabilidade. São esses que ela toma no colo. Fareja por alguns momentos, apenas para ter certeza. Arreganha os dentes, atenta ao menor vacilo. Convencida, revela o fogo primordial:


Ouve sem interromper. 

Fala sem acusar.

Oferece sem poupar. 

Clama sem cessar.

Responde sem discutir.

Compartilha sem fingir. 

Desfruta sem reclamar. 

Confia sem vacilar. 

Perdoa sem punir.

Promete sem esquecer. 


Uma mulher beijada do jeito certo é medicina. 


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