Ode ao erro e às meninas más

            Mesmo quando passa longe do alvo, a flecha parte do arco. O conceito de erro é um subproduto da consciência dual, que precisa do contraste para evoluir. Uma vez me perguntaram se eu não estava cansada de errar. Não estou, não. Acho o erro fascinante. Primeiro porque ele parte de um centro. De mãos esperançosas e olhos atentos. Existe a preparação para a glória ou para a derrota. A tensão da corda, a respiração presa entre os dentes. O tiro que causa alívio ou tensão. Conforto ou vergonha. Quem erra sabe o que quer, mesmo que por um momento. As consequências ensinam os sábios e abatem os débeis. Quem erra testa uma hipótese sobre si mesmo com a coragem de se admitir falho. 

Só que existe um tipo de erro covarde. Nele, ignoramos a nossa natureza e traímos a voz centralizadora da intuição. Jogamos o arco no chão e saímos atirando flechas de próprio punho. Nós nascemos sabendo caçar. Mas, em algum momento, nos convenceram de que estávamos fazendo isso do jeito errado. E por algum motivo, resolvemos acreditar. O erro covarde é o que tenta agradar. O que tenta caber. O que tenta pertencer ao universo brilhante dos erros aceitáveis. O grande perigo é, que para muitos, eles não serão erros. Mas nós sempre saberemos. Exercer o livre-arbítrio para permitir a canibalização do Ser é abrir as portas para que as neuroses, o medo, a culpa e a insuficiência se instalem. 

Você sabe do que eu estou falando. Sim, você, menina boazinha. Que cresceu concordando antes mesmo de ouvir a pergunta; permissiva e adorada. Sentada em silêncio, roupas e pensamentos alinhados. O plano deles para você foi irresistível porque era normal. O extraordinário é desencorajado porque é barulhento, alinear, imprevisível. Melhor errar dentro das expectativas do que sujar o vestido. Melhor fingir que as flechas não existem do que estragar o penteado. Você carrega a culpa de amar e de ser muitas ao mesmo tempo. Para cada mulher que sonha, existem pelo menos cinco vozes tentando convencê-la do contrário. De que é tarde demais. De que é grande demais. Merecedora e digna de menos. 

O erro covarde domestica. Coloca uma coleira na multipotencialidade. Transforma La Loba em um labrador. Enfraquece os cadeados da psique que protegem contra os arroubos do predador silencioso. A mulher que não erra segue presa na menina ingênua. Mas a verdade é que o erro não existe. Só a mulher já errou muito chega a essa conclusão. Ela aprendeu que, mesmo onde restam apenas ossos, a Vida ainda é possível. Ela entendeu que a experiência é a forma mais valiosa de criar raízes ou abrir espaço. Sabe que os frutos podem ser indigestos mas não eternos. A mulher que erra está no topo da cadeia alimentar. Na lista dos desviantes mais perigosos. A mulher que erra é o próprio centro, espelho do Universo. E vive como a personificação da sinfonia divina que se esconde por trás do caos. 


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