Deuses e Monstros

         

    
    O mundo desandou no momento em que os seres humanos decidiram se separar de Deus. A divisão demanda explicação. Para defender o seu lugar em um canto, é preciso justificar a existência de um outro oposto. Mas, como dar sentido ao invisível? A necessidade de se agarrar a algo supremo e depositar fé em fenômenos que sequestram o controle é uma patologia da sociedade moderna. É mais seguro acreditar em um Deus lá no céu, com seu masculino austero movendo as cordas do destino, do que abraçar o Deus interno, que exercita o livre-arbítrio na tentativa de conquistar a si mesmo. Hoje, crer na divindade humana é um ato de rebeldia equivalente a bruxaria na Idade Média.

 

    O joelho no chão e as súplicas arrependidas muitas vezes substituem a busca honesta e sem atalhos da conquista do Eu. Fazer-se submisso e diminuir-se diante de uma força sobrenatural justifica as atitudes mesquinhas; chorar o arrependimento e implorar o perdão do infinito generoso valida as falhas que se repetem independente da resposta. Existe um trono no Céu, tomado por longas barbas brancas que criaram leis utilitárias, servindo apenas a uma parcela de privilegiados. Estes que reverenciam a ideia de bons costumes, enquanto violentam a Natureza e ignoram o antídoto amargo que reside nas sombras. Mantém o olhar para o alto, enquanto a Terra implora, urra, protesta e sangra.


As sombras condenadas se transformaram em sintomas. Ostentamos mãos ocupadas, mentes ansiosas, olhos cansados, corações endurecidos, suspiros tristes, solidão conformada, vícios, compulsões e descontroles com mais orgulho do que vergonha. O laço com o selvagem se desfez, e as consequências são tão abstratas que passam despercebidas. A linguagem da Vida é instinto, e só entendemos concreto. A exceção se transformou em um estatuto, convertendo uma legião de seguidores vorazes. As pessoas buscam respostas complexas porque se esqueceram que as respostas são simples. Quando a competição se tornou mais importante do que o processo, por mais que almejem o Alto, as torres viraram ídolos perdidos. 


O mundo desandou no momento em que os seres humanos decidiram que Deus é civilizado. Existe uma ordem secreta no Universo, regida pela energia suprema e co-criada pelas suas fagulhas despertas. Meu Deus não é feminino, não é masculino. Não está em lugar nenhum porque contém o Todo. Não precisa ser adorado, porque fez do meu corpo o seu altar. Mora na luz e na sombra, em cima e embaixo; no movimento eterno e desconfortável do pêndulo que cria e destrói, reconcilia paradoxos e batiza todos os dogmas como meias-verdades. Meu Deus sublima pecados em aprendizados, e não promete nada além de um eterno agora.


O grande feito da natureza humana é se auto realizar em sua própria divindade. 


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