Crônicas de uma mulher recém-nascida | Capítulo 1: A principal lição sobre ser mulher você já nasceu sabendo
A primeira coisa que notei nela foi a cabeça raspada. Os brincos plásticos cor-de-rosa combinando com o delineado gatinho.
Era quarta-feira, mas ela não parecia cansada. Seguia em pé, como um monolito pré-histórico que sobreviveu a todos os tipos de assédios e intempéries.
Uma mulher adulta.
Do tipo que resolve os problemas com o provedor de internet em minutos (com paciência), e lava a louça assim que termina de comer.
Manda aos diabos quem coloca um dedo fora da linha, e se recusa a esconder com preto e pano aquilo que dizem ser fora do padrão.
Ela me pegou olhando algumas vezes, e senti medo. Tudo sobre ela era imprevisível, e eu era apenas uma mariposa atraída pela luz.
Na minha juventude privilegiada, queria que alguém tivesse me contado que ficar velha não é o mesmo que ser adulta.
Até ontem eu era uma criança brincando de casinha. Uma rainha esperando que a Vida servisse de bandeja uma reprodução exata das minhas fantasias.
Quando você cresce em altura mas continua verde e dura, passa pela Terra sem saber de verdade o que é ser mulher.
Na minha cabeça, o processo de amadurecimento era uma grande obra de engenharia - cálculos e tônus para colocar pedra sobre pêsame.
Você é criada para pensar assim. Para olhar em volta e achar tudo difícil. Para se sentir pequena, como se estivesse prestes a ser esmagada a qualquer momento.
Você usa o mundo porque é vista como objeto. Come, compra, bebe, fuma, transa e esconde porque está presa na pose daquela foto de 1994.
Você se sente árida, e se convence que é forte; você dança ‘dois pra lá e um pra cá’ ignorando a batida e chama isso de autocontrole.
Você pensa que está construindo seu destino, e no meio do caminho percebe que passou anos se dedicando a levantar uma prisão.
É muito fácil reconhecer uma mulher que chegou ao limite. Ela de repente fica em silêncio. Larga o trivial na mesa e some sem deixar bilhete.
Essa mulher está em um sofrimento profundo. Mas, pela primeira vez, experimentando o que é ser adulta.
Sair da suspensão amniótica exige unhas selvagens e um rugido que não é seguido por desculpas.
Demanda confiança nas mãos invisíveis que despem, camada por camada, a visão pudica de nudez da Alma.
Quando você se torna uma mulher adulta, começa a confiar na capacidade das suas pernas de sustentarem a tensão dos opostos.
Você não se identifica mais com as coisas que faz, e nem permite que elas te definam.
Você não é sua família. Você não é seu parceiro. Você não é seu trabalho. Você não é sua religião. Você não é a visão que os outros têm de você.
Você apenas é, e não espera que nada e nem ninguém se responsabilize por isso.
Você chora quando tem vontade. Se estende, generosa, sem julgamentos ou preconceitos. Você muda de forma. Alquimiza dor em sabedoria.
Você é crua. Feita de instinto e de uma força poderosa e impossível de ser traduzida. Um raio que costura o Céu com a Terra.
Uma aparição - está ali, e logo em seguida não está mais. Um fluxo cristalino que não se detém como o limo. Desemboca em afluentes infinitos.
Ninguém pode te ensinar a ser mulher. Você já nasceu sabendo.
Todo o resto é distração.

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