Micélio


Reza a lenda que as mulheres precisam ser uma coisa ou outra, e isso deve bastar. Aquelas que exploram são consideradas perdidas; as que querem tudo ao mesmo tempo, gananciosas. 


Aprendemos que precisamos escolher entre amor e carreira, dinheiro e felicidade, espírito e matéria. Crescemos acostumadas a abrir mão. Perder de uma lado para ganhar do outro. 


Por mais engraçado que pareça, o apego é um subproduto dessa programação. Quando conquistamos algo, agarramos tão rápido e com tanta força que nem reparamos se é uma benção ou um cacto. 


Mergulhamos vertiginosamente em atividades e relacionamentos que nos deixam famintas, extraviamos vontades, suprimimos desejos, calamos a intuição, cristalizamos o ímpeto selvagem de destruir.


Perdemos a conexão com a nossa natureza crua e cíclica, que deixa morrer com a certeza que irá renascer. Nos tornamos planas, binárias - 1 para os dogmas e 0 para nós. 


Nos vemos paralisadas e concluímos que somos fracas. Temos vergonha de admitir que existe algo feroz adormecido. Perdemos a habilidade de existir como a água e o cálice ao mesmo tempo. 


Reforçamos a escassez nas comparações infinitas com ideais criados para garantir que permaneçamos engrenagens; suprimimos o grito da alma porque emoções fortes são reflexos de um temperamento descontrolado. 


Engolimos a raiva, fazemos pose, compramos um sapato novo e fingimos que está tudo bem. Enquanto isso, vamos apodrecendo por dentro, corroídas pelo poder do nosso próprio potencial não realizado. 


Com sorte, algum dia, por bem ou por mal, prestaremos atenção no sussurro antigo que sempre nos acompanhou. O arrepio sem razão, o sonho assombroso, o saber sem aprender, o palpite que se revela premonição. 


Somos ecossistemas inteiros com potenciais fossilizados, esperando pela ousadia do cinzel da autodescoberta; o comprometimento traz doses de alívio, e a consistência vence a velocidade. 


As partes emergem do submundo, revelando uma sabedoria com raízes que se alimentam da mesma fonte universal. Damos as mãos debaixo da terra, num arranjo tecido através dos milênios. 


A mulher que se abre para essa rede de nutrição passa a viver de verdade seu livre-arbítrio. Ela percebe que não precisa eleger as partes de si que irão vingar; seu ser inteiro floresce em uma declaração de abundância. 


É preciso desenvolver a capacidade de estabelecer um diálogo interno para negociar as prioridades, reunir todas as vozes em uma mesa no centro da consciência e permitir que elas desabafem sem julgamento. 


Perdemos tempo e energia demais sustentando uma postura combativa e infantilizada; esperneamos vitimizadas por feridas antigas. 


Enquanto não entendermos quem somos, a Vida parecerá uma sequência caótica de eventos desconexos.


O feminino está acostumado com o fracasso; com o abuso; com a insuficiência; com o calar compulsório. 


Guardamos aquela calça antiga com a promessa de que um dia caberemos nela de novo; um lembrete diário da derrota. 


Uma mulher motivada pelo passado escolhe viver aquilo que escolheram para ela.

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