A anatomia de um beijo
Dá para reconhecer de longe uma mulher beijada do jeito certo. Ela se estende farta e sinuosa, seus cachos maduros pesados como uma afirmação. Soam trombetas glorificando o ontem de volta ao seu devido lugar. Ela se deita, arejada e líquida, suspirando além da pressão encarcerada. Faz as pazes com seu algoz, permite que ele more entre suas costelas. Aceita sua condição de criadora e criatura, verbo e adjetivo, seguidora e templo. Permite que os joelhos se entreguem ao peso da reverência a si mesma. Leva no canto dos olhos o mapa para o submundo. Vai do Céu ao Inferno em apenas um sorriso. Ostenta o queixo iniciado que se rende quando bem quer. Guarda debaixo da língua o mistério causador da insônia daqueles que escolhem não despertar. O enigma é livre, mas a resposta é compulsória. Seu afeto cíclico não pede desculpas. Ora Afrodite, ora carranca de proa; diamantes brilham como verrugas. Ela se decifra e se devora. Monta n...