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A anatomia de um beijo

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          Dá para reconhecer de longe uma mulher beijada do jeito certo. Ela se estende farta e sinuosa, seus cachos maduros pesados como uma afirmação. Soam trombetas glorificando o ontem de volta ao seu devido lugar. Ela se deita, arejada e líquida, suspirando além da pressão encarcerada. Faz as pazes com seu algoz, permite que ele more entre suas costelas. Aceita sua condição de criadora e criatura, verbo e adjetivo, seguidora e templo. Permite que os joelhos se entreguem ao peso da reverência a si mesma. Leva no canto dos olhos o mapa para o submundo. Vai do Céu ao Inferno em apenas um sorriso.       Ostenta o queixo iniciado que se rende quando bem quer. Guarda debaixo da língua o mistério causador da insônia daqueles que escolhem não despertar. O enigma é livre, mas a resposta é compulsória. Seu afeto cíclico não pede desculpas. Ora Afrodite, ora carranca de proa; diamantes brilham como verrugas. Ela se decifra e se devora. Monta n...

Deuses e Monstros

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                      O mundo desandou no momento em que os seres humanos decidiram se separar de Deus. A divisão demanda explicação. Para defender o seu lugar em um canto, é preciso justificar a existência de um outro oposto. Mas, como dar sentido ao invisível? A necessidade de se agarrar a algo supremo e depositar fé em fenômenos que sequestram o controle é uma patologia da sociedade moderna. É mais seguro acreditar em um Deus lá no céu, com seu masculino austero movendo as cordas do destino, do que abraçar o Deus interno, que exercita o livre-arbítrio na tentativa de conquistar a si mesmo. Hoje, crer na divindade humana é um ato de rebeldia equivalente a bruxaria na Idade Média.        O joelho no chão e as súplicas arrependidas muitas vezes substituem a busca honesta e sem atalhos da conquista do Eu. Fazer-se submisso e diminuir-se diante de uma força sobrenatural justifica as atitudes mesquinhas; c...

Ode ao erro e às meninas más

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               Mesmo quando passa longe do alvo, a flecha parte do arco. O conceito de erro é um subproduto da consciência dual, que precisa do contraste para evoluir. Uma vez me perguntaram se eu não estava cansada de errar. Não estou, não. Acho o erro fascinante. Primeiro porque ele parte de um centro. De mãos esperançosas e olhos atentos. Existe a preparação para a glória ou para a derrota. A tensão da corda, a respiração presa entre os dentes. O tiro que causa alívio ou tensão. Conforto ou vergonha. Quem erra sabe o que quer, mesmo que por um momento. As consequências ensinam os sábios e abatem os débeis. Quem erra testa uma hipótese sobre si mesmo com a coragem de se admitir falho.  Só que existe um tipo de erro covarde. Nele, ignoramos a nossa natureza e traímos a voz centralizadora da intuição. Jogamos o arco no chão e saímos atirando flechas de próprio punho. Nós nascemos sabendo caçar. Mas, em algum momento, nos convenceram de...

O que as mulheres querem

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        Naquele dia o meu cabelo não estava bom.       A roupa errada de sempre. Peguei a esquerda quando deveria entrar a direita. Perdida indo te encontrar. Existe um bocado de responsabilidade acompanhando o oposto da ignorância. Não sei bem como chamar isso. Sabedoria me parece um pouco prepotente. Trata-se de algo antigo. Uma inteligência que contém a si mesma e só sabe. Um arrepio que contesta as histórias da razão. Agora vou andando com rumo e vergonha. Quantas vezes já fiz isso! O deboche já tenho. Agora quero a redenção. Digo que nunca me canso, mas não é verdade. O útero seco boceja, preguiçoso. Diz que não tem mais energia para ser mulher pela metade. Eu tropeço e concordo.       Todos eles oferecem um sorriso brilhante.       As horas seguintes são cruciais para avaliar a dimensão da fachada do ego. Gosto quando a podridão escapa entre os dentes. Gosto quando eles assumem, encabulados, confi...